Todas as ideias geniais pareceram estúpidas à partida.

2.6.10

♥ My favourite

Adoro exercitar o meu cerebro a pensar fora de si mesmo. Coisas que parecem simples mas na verdade são quase utópicas. Como estar a andar para casa e imaginar aquela rua sem mim e ter a certeza, ali mesmo, que o passeio nao se ía encurvar para abraçar o peso do meu corpo morto no chão e que as folhas nao iriam chorar das árvores se nao fosse Outono.

Somos ensinados de que pensar assim é mórbido. Doentio até. Acho que hoje em dia se é considerado depressivo se tentamos equacionar o lado vazio das coisas, o lado mau - ou como dizia o Rui Veloso, o lado lunar. Mas admiro aqueles que o conseguem fazer casualmente, que têm o sentido de presença mas também o altruismo da não-presença. Que sabem e nao se incomodam por nao-existir.

Alguém que sai cedo da festa para ir levar alguém a casa sem justificar o seu acto de altruísmo. Alguém que envia um donativo sem se identificar. Alguém que publica um livro com nome homônimo, que ninguem conhece, nunca.

Nao sei. Talvez sejam mesmo exercícios que se aproximam demasiado da utopia nos dias de hoje em que a fama se come fria e insonsa, para se despejar pelo cano abaixo na manhã seguinte. Mas gosto mais de me ver pela importancia que nao tenho. Gosto de começar onde ainda nao existo e no que não sou, e imaginar que diferença faria se tentasse ser.

Estamos tao enrolados neste conceito de definir quem somos pelo que mais gostamos de ter (ou já temos) que deixamos de ser aquele bebé gorduchinho com um sorriso maroto poucos anos depois de nascermos, para sermos a menina que adora vestidinhos cor-de-rosa, a mulher que tem um armário de sapatos, a avó que só compra echarpes com flores... E quando morrermos será que alguém vai olhar para as fotos e ver mesmo os vestidos, os sapatos e as echarpes? Será que alguém vai olhar? Para as fotos? At all...?

My favourite
é, portanto, algo tao fugaz e mutável quanto o próprio ser humano. Hoje o que é my favourite certamente nao será tao certo daqui a uns anos, mas sentimos esta necessidade de nos definirmos com atributos my-favourite em relação a tudo. Como se sem essa parafernália de qualificações mais ninguem conseguisse entender, mesmo a sério, lá no fundo, mesmo-mesmo, quem realmente somos.

O mais irónico, é que dizer que o meu filme favorito (de todos os tempos!) é o 'Elizabeth Town', que a minha condução favorita é todo-o-terreno e que o meu animal favorito é o cão... nao podia estar mais perto de uma definição generalista que me enquadra nos mesmos parâmetros de metade da população do Planeta Terra. (= filmes moralistas com um toque romântico; aventura e natureza; animais que interajem com o ser humano). Transmitia exactamente o mesmo sobre si uma pessoa que se apresentasse ao mundo como fã de 'Grey's Anatomy', escalada e body-jumping e golfinhos.

É por isto que gosto de imaginar a (minha) rua, sem mim. O que é que realmente me define depois de todos os my-favourite expirarem? O que ficará, de realmente meu, sem mim?

Só depois de imaginar-me assim, sei quem sou.


♥ Matilda | matilda.writing@gmail.com

4 comentários:

Rui Caldeira disse...

Acho que não tenho um my favourite . . . será que nascemos com isso ou temos de beber tipo . . 3 garrafas de Casal garcia até ele aparecer ??


Nunca vi o Elizabethtown :|

Matilda disse...

Good for you.

Sobre o filme: 'definição generalista que se enquadra nos mesmos parametros'

Sei que o texto é longo e por vezes ha coisas que passam ao lado sem as lermos, no worries ;)

alfa disse...

Matilda passei por aqui, gostei bastante do seu texto é muito "clean", bastante boa forma que tem de se expressar. Vou voltar. Quanto ao meu blog, gostaria que explicasse um pouco melhor a sugestão que me deixou...bjs voltarei.

Matilda disse...

Obrigada alfa. Explicarei de novo lá no blog entao.

Abraço